Quem se esvaziou de si mesmo é um sábio. Se conseguíssemos esvaziar-nos de uma vez, voltaríamos à infância da humanidade. O homem sábio movimenta-se no mundo das coisas e dos acontecimentos, mas sua morada está no reino da serenidade. Tem atividades exteriores, mas sua intimidade está instalada naquele fundo imutável que, sem possibilidade de mudança, dá origem a toda sua atividade.
Para o vazio de si mesmo não existe o ridículo, o temor nunca bate a sua porta, nem a tristeza, não existem sobressaltos para o despossuído e vive desligado do que os outros pensam ou digam sobre sua pessoa. Nada no mundo consegue remexer sua serenidade. Assim como o furacão não fere o rochedo, os desgostos deixam imutável o homem que renunciou à ilusão do eu.
A presença de si é perturbada normalmente pelos delírios do eu, mas, uma vez livres das ataduras próprias do eu, lança-se sem impedimentos no seio profundo da liberdade. Como consequência consegue viver livre de todo temor e adquire a estabilidade de quem está acima de qualquer mudança. E assim, o pobre e despossuído, ao sentir-se desligado de si mesmo, entra suavemente nas águas cálidas da serenidade, humildade, benevolência, mansidão, compreensão e paz.
Sem poder nem propriedades, o despossuído faz o caminho olhando tudo com ternura, tratando tudo com respeito e veneração. Sua vestimenta é a paciência e suas entranhas são tecidas de mansidão. Nada tem a defender porque está desprendido de tudo.
Os despossuídos são sábios porque são os únicos a olhar o mundo com olhos limpos. Só uma pessoa vazia pode observar o mundo em sua essencial originalidade. Enquanto você não for pobre, vazio, puro, não verá as coisas como são, irá olhá-las com desejo de posse ou rejeição e, de todo modo, sempre deformadas.
Não dê satisfações a ilusão do eu: se falarem mal de você, não se defenda; se as coisas não derem certo, não se justifique. Não dê passagem a autocompaixão, não busque elogios, fuja dos aplausos. Assim, tirando-se o óleo, a lamparina acabará se apagando e você terá vencido a batalha pela liberdade.
Não gaste mal suas energias, avance para a segurança interior, a ausência do temor, caminha sem cessar da escravidão para a liberdade, e liberdade significa dar livre curso a todos os impulsos criadores y benévolos que existem no fundo do seu coração.
Extraído do livro O Arte de ser Feliz de Fr. Ignacio Larrañaga



