Chegaram, afinal, ao pé da montanha. Antes de começar a escalada, descansaram umas horas debaixo de uma frondosa azinheira. O que ali aconteceu não se pode explicar humanamente. Em poucos minutos, apareceram dezenas e dezenas de melros, cotovias, pintarroxos, rouxinóis, pardais, estorninhos, tentilhões e até perdizes. Confuso e agradecido, o Irmão repetia:
– Obrigado, Senhor, obrigado!
Foi uma festa nunca vista. As aves piavam, chilreavam, cantavam, revoluteavam em torno de Francisco, em alegre algazarra. Algumas faziam piruetas ousadas e mergulhos acrobáticos, enquanto outras pousavam ora sobre a cabeça dele, ora sobre seus ombros, braços ou joelhos. Foi um festival de canto e dança.
– Irmão Leão, que maravilha! Que prodígio! Como Deus é grande! Exclamou Francisco completamente inebriado pelo espetáculo. E acrescentou: só faltam as andorinhas para que brote a primavera, no cume do Alverne.
Subiram pela pendente escarpada. Francisco abria desmesuradamente os olhos. Dir-se-ia que contemplava aquela ladeira pela primeira vez. Parecia-lhe estar no começo do mundo: tudo era novo. Enraizados firmemente no solo rochoso, altíssimos abetos escalavam os céus. Pareciam tocar o firmamento e tinham tal diâmetro que quatro homens juntos não conseguiriam abraçá-los.
Francisco suplicou ao arrieiro que parasse o jumento. Em pé, junto de um abeto, cobrindo os olhos com a mão, para defender-se do sol, o Irmão contemplava de cima para baixo. Depois de admirar por algum tempo, exclamou:
– Senhor, Senhor, como é grande!
A medida em que subiam, o espaço dilatava-se à vista. Corpulentas faias, poderosas azinheiras e altíssimos pinheiros, de rara espécie, projetavam uma sombra profunda e fresca. Francisco sentiu-se no paraíso.
-Irmão Leão, exclamou, que paz! que liberdade! que felicidade! Somos os homens mais felizes da terra.
Quando chegou a planície, Francisco quis ficar sozinho e manifestou aos irmãos esse desejo. Internou-se no bosque. Caminhou em diversas direções. Depois desceu uns quinhentos pés, para além das rochas. Colocou-se diante delas, de costas para o sol, ao cair da tarde. Que espetáculo! É difícil encontrar uma evocação mais plástica do poder e da eternidade de Deus.
Eram umas rochas selvagens que afundavam suas raízes na montanha e levantavam a cabeça contra a abóboda do firmamento. Investida pela luz dourada do sol poente, pareciam um incêndio de remotíssimas épocas telúricas. Tudo era fogo e delírio lá em cima da montanha.
– Que raios terão caído sobre essas rochas – perguntou Francisco – para produzir tais fendas? Que terremoto terá partido esses ciclopes? Isso deve ter acontecido quando a terra protestou pela morte de Jesus – pensou.
Francisco estava aniquilado, repetindo em voz alta:
– Senhor, Senhor!
Deus caiu com o peso infinito de sua doçura sobre a alma de Francisco. Essa consolação arrancou-o de si mesmo, elevou suas potências à altíssima voltagem. Ele se ajoelhou diante das rochas titânicas, estendeu os braços e, levantando muito a voz assim falou:
– Altíssimo Senhor, ainda que indigno de dizer teu nome, eu te dirijo este canto.
Senhor, Senhor, gravitação eterna dos horizontes sem fim!
És belo como esta paisagem, invencível como estas rochas, eterno como esta montanha, profundo como esse azul!
Tu levantaste estas pedras como terríveis sentinelas para vigiar a marcha dos séculos.
No incêndio destes picos a minha alma te sente e te ama.
Tudo está cheio de tua presença. Tu brilharás para sempre sobre as rochas de minha alma.
Bendito sejas pelo poder eterno deste maciço.
Bendito sejas por suas fendas dilaceradas.
Bendito sejas pelas neves eternas.
Bendito sejas pelo silêncio augusto das noites estreladas.
Tirado do livro “O Irmão de Assis” Capitulo VI Subtítulo “Alverne à vista” de Frei Ignacio Larrañaga.








